Acordei querendo viver, tomei um belo banho e fui comprar pão. Cheguei na padaria, dei bom dia a todos e observei uma moça jovem e bonita, me pareceu misteriosa, diferente demais, acompanhada a uma criança de 6 anos mais ou menos. Me chamaram a atenção pela forma com que se olhavam, jeito com que a moça dizia delicadamente não para todas os pedidos que a criança fazia. Não podia imaginar o quanto pareciam felizes, o pequeno menino disse olhando fixamente para a jovem:
- Tia, você me ajuda a escolhar o gugute?
O que mais me estranhou foi quando a mulher se apresentou um pouco estressada com tantos pedidos do garotinho. A poucos segundos ela estava doce e carinhosa demais, eu sabia que alí tinha coisa. Será que eu estava encarando a cena demais? Ela devia ter percebido ou coisa parecida. A moça pegou a mãozinha do garotinho e o levou para escolher o tal iorgute. Eu parei de olhar e fui me dirigindo a servente da padaria para que ela fatiasse mortadela pra mim. Percebi que os dois estavam andando até o pão e eu corri também para pegar o meu, queria ficar um pouco mais perto para ouvir a conversa. Ela ia dizendo:
- Rick, você tem que falar que gostou de mim pro pessoal do ACA pra gente passar mais tempo juntos, tá bom?
Ele confirmou com a cabeça. Eu fingi que não havia escutado e não resisti:
- Que criança linda! É seu filho?
A moça que me parecia muito gentil até então puxou a mão d pequenino, virou a cara e saiu.
Fiquei encabulada com essa hstória toda. Acho que eles não queriam ser incomodados e eu não fazia a mínima ideia do que era a tal ACA e muito menos todo o misterio que rodeava essa história. De uma coisa eu tinha certeza: o menino não era filho da moça, que era jovem demais e não tinha o porquê de ter essa atitude ridicula. Terminei de pegar o meu pão e um suco de frutas, fui direto pro caixa pagar e caminhar até minha casa. Não conseguia tirar a cena da minha cabeça. Nunca tinha visto os dois no bairro, era 08:00 da manhã e ainda por cima em pleno domingo. Queria muito saber o que acontecera de verdade, pelo menos serviu de liçao pra minha curiosidade, quem sabe assim eu não paro de me meter onde não sou chamada? Cheguei em casa, comi meu pão com mortadela e já ia me preparar para assistir Fórmula 1, assim eu conseguiria desviar meu pensamento.
~ A semana se passou e ia na padaria todos os dias no mesmo horário para ver se encontrava aquela dupla novamente. Nada. Resolvi olhar na internet esse tal de ACA, mas nem achei nada.
Passados um mês, andando pela rua do lado oposto á padaria, os encontrei. Corri pra conversar com a moça e consegui alcançá-los.
- Moça, você me desculpa se fui muito invasiva na sua vida.
Ela se dirigiu a mim com um sorriso, pegou o menino no colo, deu um belo beijo no rosto dele e disse:
- Agora sim o Rick é meu filho. Eu é que fui muito idiota aquele dia, a senhora me descupa?
Nossa, ela me chamou de senhora. Será que tá tão na cara assim?
- Ah, que bom, eu achei vocês muito simpáticos.
ela colocou o menino no chão, deu um tapinha na bundinha dele e mandou ele ir brincar na pracinha que tinha logo na esquina.
- É que nós estavamos num processo muito delicado, sabe? Ele perdeu os pais e não tinha ninguém. Eu estava lutando pela guarda dele, me encantei assim que o vi pela primeira vez.
- Nossa, me desculpe, se você não quiser falar sobre isso, tudo bem.
- Não, não, quero falar sim. - ela disse me parecendo muito sincera.- É que eu consegui a guarda dele anteontem e você não sabe o quanto estou feliz.
Nós conversamos por um longo tempo e realmente percebi que ela não conversou comigo aquele dia, porque estava precisando se auto conhecer melhor e estava com os nervos à flor da pele. É por isso que depois desse dia, passei a entender os problemas das pessoas melhor, ví que tudo tem sua hora e seu lugar para acontecer. Aquele dia eu vi que era isso que tinha que acontecer e ponto final.
~ Carolina Schmidt